Clóvis Goldemberg

De wikITA

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Recebeu o título de Engenheiro Honoris Causa em 08/12/2005.

Faleceu em 6 de Novembro de 2009.


Publicado na Folha de São Paulo, 12 de Novembro 2009, caderno Cotidiano, pagina C12.

CLOVIS GOLDEMBERG (1954-2009)

Um dos meninos do ITA, Clovis não se achava um herói

Estêvão Bertoni, da reportagem local

No ano em que completou 21 anos, Clovis Goldemberg foi expulso da faculdade e mandado para a cadeia.

Em 1975, era aluno do segundo ano de engenharia do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) e responsável por cuidar da área cultural do centro acadêmico, organizando shows, peças etc. Para os militares, Clovis era um agitador subversivo.

Foi encaminhado ao DOI-CODI, torturado, e só saiu de lá transferido: naqueles dias, o jornalista Vladimir Herzog havia sido assassinado pela repressão no mesmo prédio em que ele estava preso.

O estudante ficou ainda quatro meses na base aérea de Cumbica e mais sete meses num presídio no Brás, na região central de São Paulo.

Desde o golpe de 64, foram três as investidas dos militares contra o ITA, com um saldo de dois professores e 21 estudantes encarcerados. Esses alunos ficaram conhecidos como meninos do ITA.

Filho do físico José Goldemberg, quando saiu da cadeia Clovis teve de recomeçar: entrou na Unicamp, formou-se em física e em engenharia e lá acabou fazendo mestrado e doutorado.

Dizia não se sentir prejudicado, não queria indenização e também não se achava um herói por aquilo que havia acontecido, diz Gleise, sua segunda mulher.

Ele trabalhou em indústrias, fez projeto na África e era professor da Poli-USP.

Morreu sexta, aos 54, de um câncer que o impediu de concluir um livro didático sobre motores. Deixa duas filhas.


Breve relato extraído da ITA-Net

Falecimento do prof. Clovis Goldemberg

Recebemos com tristeza a notícia do falecimento do professor Clovis Goldemberg, no último dia 6 de novembro. Clovis Goldemberg era professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, mas teve uma forte ligação com nossa Faculdade. Ele observava que seus quatro diplomas, engenheiro eletricista, físico, mestre e doutor foram conseguidos na Unicamp.

Clovis foi meu aluno em disciplina e também orientei seu mestrado e seu doutorado. Era um aluno instigante, sempre questionava, não aceitava afirmações incorretas, e em muitas ocasiões me trazia à memória a frase de Riobaldo - 'mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende'. Lembro-me de sua discussão sobre o chamado 'Teorema da máxima transferência de potência'. Livros recentes trazem afirmações erradas - num deles, literalmente, 'as aplicações práticas do teorema da máxima transferência de potência encontram-se no projeto de amplificadores estéreo, na busca pela maximização da potência entregue aos falantes e no projeto de veículos elétricos, no qual se busca maximizar a potência entregue para acionar um motor'. Clovis perguntava: não se deveria casar a carga de um gerador de usina hidroelétrica para aumentar a potência fornecida que é, em última análise, o que se deseja?

O início da ligação do prof. Clovis com nossa Faculdade ocorreu em 1975, quando, pela terceira vez, alunos do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica) foram expulsos por motivos políticos (No total foram expulsos 21 alunos, além de dois professores). Dessa vez, aparentemente, o motivo foi a derrubada, no Congresso Nacional, do projeto de lei 2.113/74 que tornaria obrigatório que alunos formados no ITA servissem à Aeronáutica (ou reembolsassem o período escolar). A derrubada do projeto - pela primeira vez um projeto do executivo militar foi derrubado - decorreu da mobilização do Centro Acadêmico Santos Dumond dos alunos do ITA. Em outubro de 1975, cinco alunos que articularam votos junto a senadores - Clovis Goldemberg, Marcelo Moreira Ganzarolli, Osvair Vidal Trevisan, Sérgio Salazar e Waldir Luiz Ribeiro Gallo - acabaram presos, sob alegação de participarem de reuniões do proscrito Partido Comunista.

Iniciado o IPM (Inquérito Policial Militar), recomendou-se apenas o desligamento dos cinco do ITA, o que foi efetivado em dezembro. Mas o Comando da Aeronáutica pediu o indiciamento dos presos em três artigos da Lei de Segurança Nacional.

Trevisan, Salazar, Gallo e Ganzarolli foram soltos em janeiro para aguardar a decisão judicial em liberdade; Goldemberg permaneceu em prisão preventiva. Consumada a expulsão do ITA, procuraram várias instituições para prosseguir seus estudos. Encontraram apenas a porta da Unicamp aberta. A Unicamp era, no Brasil daqueles anos, uma ilha de tolerância.

É importante lembrar que não houve qualquer favorecimento por parte da Universidade. "Eles foram admitidos da mesma forma que todo aluno proveniente de outra instituição, por meio de avaliação do histórico escolar, estudo comparativo de disciplinas e de provas específicas", testemunha o professor José Ricardo Figueiredo, "iteano" que conviveu com os colegas expulsos e hoje também leciona na Unicamp. Clovis Goldemberg, que precisou de autorização da Auditoria Militar para prestar os exames, veio prestá-los em Campinas, sob escolta de Base Aérea de Cumbica.

Absolvidos por unanimidade em primeira instância, em maio de 1976, retomaram os estudos, nos cursos de Física e Engenharia Mecânica e Elétrica. Mas em setembro foram condenados pelo Superior Tribunal Militar. Resolveram se esconder, havia um espírito solidário que os envolvia. Permaneceram como foragidos até março de 77, quando foram alertados pelo advogado de que o recurso impetrado junto ao Supremo Tribunal Federal só poderia ser julgado se estivessem na prisão. "Fomos nos entregar em São Paulo,de ônibus", ironiza Ganzarolli. Recolhidos no Presídio do Hipódromo até 9 de setembro de 77, saíram em liberdade condicional das celas para as salas de aula. Em 22 de fevereiro de 1979 foram absolvidos novamente por unanimidade. Marcelo Ganzarolli, Osvair Trevisan, Sérgio Salazar e Waldir Gallo fizeram carreira na Unicamp, como professores da FEM. Clovis Goldemberg, depois de formado trabalhou no exterior e retornou à Unicamp para fazer o mestrado e o doutorado. Desde 1990 era professor da Escola Politécnica da USP.

Sempre foi muito agradável trabalhar com Clovis e depois de seu doutorado, encontrá-lo em seu escritório ou em aulas quando visitava a Escola Politécnica. Ouvi-lo falar sobre seus trabalhos e seus projetos. Seu temperamento discreto quase escondia sua enorme vontade de aprender e seus interesses variados.


Turma de 1977

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