Descanso

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Edição de 01h13min de 14 de setembro de 2019

Descanso

Vezes há, quando a mente perde-se em conjecturas,
E, em busca da verdade, soberana, nas alturas,
Tenta, ao mirar do alto, a razão ou o porquê
De ser nossa existência a comédia que ela é.


É preciso estar munido de total desprendimento
Sem o qual não há saída desse corredor cinzento,
No qual tudo se comprime, adensando o mistério.
Pobre caminhar o nosso, sem escolha, sem critério.


Por saber que cá estamos por um mero acidente
Que ganhamos, sem pedi-los, sofrimentos de presente
É pretexto insuficiente pra deixar-nos revoltados.
Reclamarmos com o bispo por não sermos consultados.


É um sonho a ser vivido, ou um simples pesadelo?
Otimista é quem transforma calabouço em castelo!
Se possível, afastando para sempre o desespero.
Gênio, monstro ou retardado fazem jus ao mesmo zero.


Esse zero, por acaso, e a nota merecida.

É o triste somatório do que foi a sua vida.

O ridículo supremo o envolve pouco a pouco.

Discordar é o direito adquirido de ser louco.


Quem sonhou, um belo dia, ser o dono deste mundo,

Abiscoita o desespero, forte, intenso e profundo.

Pois em nada se alteram as andanças do planeta.

Sempre perderá as fichas, nessa mesa de roleta.


Argonauta, com coragem, achará seu velocino.

Ilusão cruel o aguarda: foi só obra do destino,

Do qual, ilusão funesta, não deixou de ser joguete.

Como se Jasão passasse de uma pobre marionete.


A vitória, que o embala, não passou de exceção.

Que o deixa vulnerável, preso à mistificação

De haver, por um momento, governado sua sorte.

O triunfo é do fraco, o fracasso é do forte.


Não resista, abandone, dê espaço a derrota.

O seu debater inútil vira alvo de chacota.

Não procure destacar-se, não irrite a torcida.

Que gargalha e festeja, comemora-lhe a ferida.


Largue tudo, renuncie e aceite o cambapé,

Mas se for preciso finja que jamais perdeu a fé.

Quando concluir seu ciclo, seu descanso será... lá.

Siga então esse conselho e descanse desde já!

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