Sérgio Geraldo Quintella

De wikITA

Texto escrito por seus filhos Eliane, Sérgio Ricardo, Sílvia e Caroline em maio de 2013, a partir de uma solicitação por e-mail:

É uma pena que não é nosso pai amado, Sérgio Geraldo Quintella, que esteja fazendo sua própria
página. Ele amava o ITA e temos certeza que teria muito orgulho e satisfação de fazer isso.
Para sermos fiéis ao que ele gostaria de dizer, buscamos lembrar as coisas que ele gostava
de comentar sobre sua época da faculdade e pinçar suas principais conquistas profissionais.

Sérgio Geraldo Quintella nasceu em 16 de outubro de 1932, no Rio de Janeiro, carioca da gema, como ele gostava de dizer. Ele, desde criança, era aficionado por aviões, sonhava em ser piloto, mas na época um “desvio de septo nasal” o impediu de voar profissionalmente. A paixão por aviões falou mais alto e, apesar de ser vontade de sua família que cursasse odontologia na cidade maravilhosa, nosso pai, que já era dono do seu próprio destino, partiu para São José dos Campos para estudar no Instituto Tecnológico de Aeronáutica.

No ITA, quem teve a chance de conhecer o Bangu (apelido dado pelos colegas do ITA) se lembra que, além de destaque nos esportes, brilhava com ainda mais intensidade nos estudos da faculdade.

Papai foi campeão paulista dos cem metros rasos com o tempo invejável de 10.8 segundos, além disso, participava de campeonatos de basquete e futebol de salão. Por conta de suas conquistas e dedicação o ITA fez questão de presentear o Bangu com um troféu exclusivo, cunhado especialmente em sua homenagem no qual está gravado: “Ao Bangu pelas glórias conquistadas”.

Na área dos estudos, o brilho foi ainda mais intenso ou talvez mais durador, já que sua mente brilhante esteve com ele toda a vida e iluminou quem estivesse por perto até o final dos seus dias. Nosso pai foi logo de pequeno considerado gênio. Sua facilidade e paixão pelas matérias de exatas fizeram dele melhor aluno de sua turma. Por esse motivo, assim que saiu da faculdade, em 1956, ele foi convidado a ser professor do ITA, cargo que exerceu até 1960, quando partiu para fazer mestrado e doutorado na Universidade de Illinois, novamente a convite do ITA.

Estudou nos Estados Unidos da América de 1960 a 1965 tendo concluído M.Sc. - Mechanical Engineering - University of Illinois em Setembro de 1961 e o Ph.D. - Mechanical Engineering - University of Illinois, em Janeiro de 1965. Além disso, participou em 1963 da 1ª Conferência de Conversão Direta de Energia realizada nos Laboratórios Nacionais de Argonne, em Chicago, tendo oportunidade de apresentar um trabalho sobre o assunto. Durante o ano de 1964 trabalhou também no laboratório de alto vácuo do Coordinated Sciences Laboratory da Universidade de Illinois, no campo de conversão direta de energia por meio de conversores termiônicos. Publicou em 1965 no Proceedings of the IEEE, uma discussão sobre um trabalho relacionado ao controle por meio de foguetes de corpos espaciais.

Quintella era um homem de caráter e honrado e foi, por esse motivo e por seu amor ao Brasil, que apesar de ter sido convidado a trabalhar na NASA retornou ao Brasil para ser professor do ITA, conforme tinha se comprometido, exercendo esse cargo até 1969. Ministrou nesse período os cursos curriculares (teoria e exercício) de Termodinâmica Teórica, Termodinâmica Aplicada, Aero-Termodinâmica (Dinâmica dos Gases), Física Estatística, Estatística e Probabilidade, Motores à Reação e os cursos de laboratório de Motores Alternativos, Sistemas Auxiliares de Motores, Aero-Termodinâmica e Motores à Reação. Além de orientador, ministrou para os candidatos a Master of Science os cursos de pós-graduação de Transmissão de Calor por Condução, Transmissão de Calor por Convecção e por Radiação, Termodinâmica Estatística e Quântica, e Conversão Direta de Energia. Serviu também no ITA como consultor para a indústria e relator de pedidos de patentes para assuntos nessas áreas.

Trabalhou também, de junho de 1965 a janeiro de 1966, no Conselho Nacional de Atividades Espaciais (CNAE), viajando para os Estados Unidos em julho de 1965, tendo participado como diretor científico do Brasil do projeto EXAMETNET (Experimental American Meteorological Network) na conferência patrocinada pela NASA.

Em setembro de 1965 participou da Primeira Conferência Internacional de Conversores Termiônicos, realizada em Londres e patrocinada pelo Institute of Electrical Engineers da Inglaterra, onde, mais uma vez, teve a chance de apresentar um trabalho seu sobre o assunto.

Em 1965 exerceu no ITA as funções de chefe geral do Laboratório de Termodinâmica, Laboratório de Hidrodinâmica e Laboratório de Transmissão de Calor.

Em 1966, começou a lecionar na Escola de Engenharia Mauá, São Paulo. Ocupou em 1969 a regência da Cadeira de Termodinâmica e Máquinas Térmicas na Escola de Engenharia Mauá e em 1970 a regência da Cadeira de Máquinas Térmicas na Fundação Álvares Penteado, faculdade na qual também começou a lecionar.

Em janeiro de 1967, Sérgio Geraldo Quintella ingressou na BBC-Brown Boveri S.A, onde exerceu a partir de novembro de 1967 as funções de chefe do Departamento de Projetos Elétricos. Em abril de 1968, tamanho seu talento, já foi convidado a assumir a Gerência de Projetos. Nos anos 1968/1969 foi responsável também pela coordenação geral da construção em regime ‘turn-key” da Casa de Força da Refinaria Alberto Pasqualin (REFAP) em Canoas – RS. Após curto lapso temporal, precisamente em novembro de 1970, foi nomeado Diretor Industrial, posição que ocupou até janeiro de 1988. Foi o responsável perante a Suíça a partir de 1973, pela elaboração e posterior execução de todos os investimentos da BBC-Osasco e posteriormente (maio de 1981), da BBC-Brasil. Fez o curso de aperfeiçoamento para Diretor Sênior no Centre d’Etudes Industrielles em Genève, Suíça. Chefiou a delegação da BBC-Osasco à G.M. Locomotivas – USA para discussão de possível joint-venture no Brasil.

Em maio de 1981 foi criada a BBC-Brasil com dois diretores: o Sr. Franz Voegeli e o Dr. Sérgio Geraldo Quintella, que era também substituto do Diretor Geral e Delegado do Conselho de Administração da BBC-Baden.

Como Diretor Industrial coordenou toda a parte de projeto e construção dos hidro-geradores e transformadores (800 kV) para a usina hidroelétrica de Itaipu (na ocasião a maior hidroelétrica do mundo), participando de várias inovações técnicas introduzidas. Esse projeto foi motivo de muito orgulho para nosso pai e serviu de modelo para a empresa mundo afora.

Em janeiro de 1988, efetivada a fusão no Brasil entre a Asea e a Brown Boveri (ABB), foi promovido a Diretor Técnico da ABB Latino Americana, ficando como responsável técnico pela supervisão de toda a produção e investimentos das empresas latino-americanas, inclusive as brasileiras. Permaneceu neste cargo até outubro de 1988, quando deixou a ABB.

Em 1989, 1990 e 1991 trabalhou como Consultor de Empresas nas áreas de organização geral, planejamento estratégico, instrumentos de gerenciamento, custos e produção.

Em novembro de 1991 foi convidado pelo Banco Iochpe de Investimentos para trabalhar como consultor técnico na fusão projetada das nove maiores empresas brasileiras de Bens de Capital. No final sobraram apenas duas empresas, Dedini e Zanini. Foi convidado para assumir o cargo de Diretor Superintendente da nova empresa, a DZ, aonde implementou a fusão e permaneceu até setembro de 1993.

Foi contratado pela WEG para a concepção e posterior coordenação técnica da execução de sua nova fábrica de transformadores de alta tensão (inicialmente até 238 kV) em Blumenau.

Paralelamente à atividade de consultoria empresarial, nosso pai foi proprietário da Nautec, fábrica de barcos de pesca, ali ele, como gostava de dizer, se divertia, projetando barcos de excelência técnica. Pesca era uma de suas paixões. Sempre que podia ele fugia para pescar.

Nos últimos anos nosso pai exerceu somente consultoria empresarial, atividade que manteve até o fim, mesmo após receber o diagnóstico de metástase. Para nossa incomensurável tristeza, papai se foi no dia 21 de agosto de 2009.

A verdade é que, apesar de todas conquistas do nosso pai, quem o conheceu, sabe que elas não são suficientes para dar a dimensão do homem genial que ele sempre foi. Nós podemos ser suspeitos para fazer a afirmação, mas a verdade é que com sinceridade nos olhos e no coração nós sabemos que não existe ser humano perfeito, mas, para nós, ele é o exemplo mais próximo da perfeição que conhecemos, não apenas por suas características intelectuais, como pelo caráter ilibado, pelas convicções e princípios firmes que sempre adotou ao longo de sua vida.

Ele era uma daquelas pessoas firmes e corretas, sempre manifestou o que pensava com honestidade e retidão, tinha a mania boa, hoje rara e saudosa, de olhar nos olhos da pessoa com quem conversava, não há quem não sinta falta de passar um tempo com ele, sempre valioso. Tinha paciência, bondade, generosidade e talvez, por conta de sua elevada inteligência, tudo o que fizesse era sublime. O tempo passa, mas não acreditamos que haverá um dia em que nossos olhos não se encherão de lágrimas toda vez que lembrarmos dele. Ele sempre foi nosso maior tesouro. Tamanho o amor que sentimos que sabemos que ele será hábil para superar as barreiras do tempo e do espaço e o alcançar onde quer que ele esteja.


Turma de 1956

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